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O Poderoso Chefão

 

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O Poderoso Chefão
Título original:
The Godfather 175 min.

Elenco:
Marlon Brando – Don Vito Corleone
Al Pacino – Michael Corleone
James Caan – Sonny Corleone
Robert Duvall – Tom Hagen
Diane Keaton – Kay Adams

Direção: Francis Ford Coppola

Roteiristas: Mario Puzo e Francis Ford Coppola
Gênero: Drama

Apesar de o filme ser rodado na década de 1970, a obra foi tão impactante, inovadora e revolucionária, que incidiu diretamente na geração da década vindoura, tanto na arte – cinema, música e literatura – como na cultura pop. O imaginário das pessoas fora inundado pelos elementos iconográficos mais relevantes do filme, desde comportamentos, bordões, até vestimentas.

Tudo começou em 1972, quando o hoje consagrado cineasta, Francis Ford Copolla, enxergou nas terras férteis do período da “Nova Hollywood”, um solo muito propício para florescer um projeto que impactaria de maneira não apenas contundente, mas definitiva, a história da Sétima Arte. Baseado no romance homônimo de Mário Puzo, Coppola trouxe para as telas “O Poderoso Chefão” (The Godfather). A história nos conta a trajetória da “Família Corleone” e sua meteórica, porém sangrenta e implacável ascensão no seio da “Cosa Nostra”. Apesar do enredo e dos personagens serem ficcionais, estes foram abertamente inspirados na história real de Salvatore Lucaina, ou “Lucky Luciano”, como era mais conhecido: o gangster mais poderoso da primeira metade do século XX, que ainda muito jovem, suprimiu todas as facções mafiosas rivais de Nova York e se tornou o maior líder do crime organizado de sua época, recebendo a alcunha de “Capo di Tutti Capi”, ou “Chefe de Todos os Chefes”.

A obra já nos brinda com a maestria do diretor logo na cena inicial. Num diálogo entre Don Vito Corleone – o chefe da Família Corleone – e o agente funerário, Amerigo Bonasera , onde este último pede ao mafioso justiça por sua filha que fora agredida, o filme nos apresenta o protagonista de uma maneira que apenas um roteiro brilhante seria capaz. Neste diálogo, contemplamos com clareza a dualidade presente no personagem de Vito: apesar de ser um implacável líder de uma violenta facção criminosa, também possui um lado muito humano. Duas facetas que, embora antagônicas, são equilibradas de forma memorável pelo incrível trabalho de atuação realizado por Marlon Brando. E tal mérito não se deve somente a isso ou à possível proximidade de Mario Puzo com o personagem, uma vez que o autor também foi roteirista do filme, outros elementos e recursos cinematográficos também contribuem para tal feito. Além do roteiro, o enquadramento muito bem pensado, os planos detalhes, o tom terroso da cinematografia e posicionamento da luz, tudo sincronizado no momento certo, funcionam como uma complexa engrenagem operando em perfeita harmonia e permitindo ao expectador, já nos minutos iniciais, perceber que está diante de uma obra-prima.

Logo toda a família (consanguínea) do Don Corleone nos é mostrada na cena seguinte e, mais uma vez, o filme cumpre com excelência a apresentação dos personagens. Durante uma festa de casamento, conhecemos os herdeiros do Don e suas respectivas personalidades: o altivo e intempestivo Sonny, o covarde e tímido Fredo e por fim e mais importante, o moralista e gentil Michael. O ambiente escuro, claustrofóbico e sombrio da cena anterior é substituído agora por planos abertos, músicas, mais cores e muito movimento. Entretanto, apesar da atmosfera mais colorida e festiva, essa sequência evidencia a opulência e a influência exercidas pela família Corleone, bem como a relação dos três irmãos entre si, com o pai e com os negócios da Família.
Conforme o enredo discorre, mais elementos sobre a relação dos personagens e o funcionamento dos negócios da máfia são elucidados. A indústria de Hollywood sempre fora conhecida pelas inúmeras produções com esta temática desde os anos 1920, no entanto, nos filmes anteriores, tanto a “Cosa Nostra” quanto seus integrantes, sempre apareceram retratados de maneira muito maniqueísta e binária, beirando o burlesco. Temos em “O Poderoso Chefão” uma conjuntura muito distinta e impactante. Os membros da máfia aparecem aqui como seres humanos complexos e conflituosos, sua relação com os lucrativos negócios criminosos não se distingue muito da dinâmica de poderosos empresários, juízes ou políticos com seus respectivos empreendimentos e o filme deixa isso bem claro.

A história segue orquestrada por uma edição e uma montagem compassadas, impondo o ritmo necessário para absorvermos e digerirmos os diálogos e as situações, compondo assim com genialidade, a atmosfera taciturna, perigosa e melancólica do universo retratado. O arco de cada um dos personagens é desdobrado de maneira tão sincera e humana que, não obstante o caráter cruel e implacável de alguns deles, facilmente nos simpatizamos e torcemos por eles.

Apesar do personagem interpretado por Marlon Brando ser o protagonista – o que rendeu ao ator a premiação da Academia pelo papel – vale atenção especial o arco narrativo do filho caçula do Dom Corleone, Michael, interpretado por um ainda muito jovem Al Pacino. Após um acontecimento trágico, Michael se vê forçado a integrar os negócios da família, algo do qual, inicialmente, ele se abstinha com veemência. Aos poucos vislumbramos o quão frágeis eram a ética, a gentileza e a bondade do jovem Corleone, tais traços cedem lugar a uma crueldade, calculismo e frieza que jamais estiveram presentes na personalidade e nas ações do seu pai.

Sob a gestão de Michael, os negócios da família Corleone decolam de maneira colossal. Nesse ponto, podemos observar outro rompimento de Copolla com os paradigmas do gênero, pois até então, na indústria hollywoodiana, as produções que retratavam transgressores respeitavam uma parábola muito clara: ambição, ascensão, apogeu e queda; ao passo que em “O Poderoso Chefão”, temos ascensão, ascensão e mais ascensão. Entretanto, a obra está distante de fazer alguma apologia a tal estilo de vida, pois a cada passo de fortuna e poder galgado por Michael, mais o seu caráter se afunda na degradação e sua humanidade se deteriora. A apoteose dessa ruína moral vivida pelo personagem se dá em umas das cenas finais, onde imagens de seu filho sendo batizado são intercaladas com as imagens dos assassinatos engendrados pelo mafioso. O som da voz de Michael recitando um juramento cristão onde renegaria a todo o mal e a todas as obras do Diabo, além de uma trilha sonora apocalíptica executada de maneira progressivamente ascendente, ilustram cenas de um massacre brutal e sangrento de uma forma arrebatadora. Certamente, esta sequência desenvolvida com tamanha maestria, é uma das mais emblemáticas cenas da história da Sétima Arte.

“O Poderoso Chefão”, realizado há quase meio século, tornou-se uma obra atemporal, conquistou e conquista novas gerações de um modo tão intenso como na época em que foi lançado. Certamente integra com louvor o ranking doa melhores filmes já feitos, é uma obra imortal.


Rapha Mussato


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